Depois eu leio

Rails Summit 2009

Nos dias 13 e 14 de outubro estive no Rails Summit 2009. Numa das palestras do dia 13 (se não me engano do Ilya Grigorik), o palestrante perguntou: quem aqui é programador .NET? Levantei a mão sozinho no meio do auditório, e pelo que o palestrante apontou, devia ter apenas mais um ou dois nas cadeiras do fundo.

Passei o minuto seguinte contando quantas pessoas haviam no meu campo de visão – 60 – e outro minuto calculando o total do público naquela palestra – mais ou menos 220 pessoas. Enquanto isso, a pergunta seguinte foi “e quem aqui é programador Java?”. Metade do público levantou a mão.

Qual será o motivo dessa diferença? O preço do evento era bem acessível (R$199,00 mais barato que a compra antecipada do último TechEd, e R$399,00 do que a compra na última data), e o conteúdo, apesar do tema principal ser Ruby on Rails, contava com ícones do mundo do software falando sobre temas diversos. Rockstars, como brincou o Obie Fernandez no seu Keynote.

Meu palpite é que isso é reflexo do isolamento histórico que a comunidade .NET mantém com o resto do mundo. Por muito tempo, as únicas referências que os seus developers, developers, developers recebiam eram o incentivo ao drag-and-drop e a falsa impressão que a MS podia lhes dar tudo o que precisassem. Precisam de um ORM? Vamos fazer um novo ao invés de colaborar com o NHibernate. Querem usar ajax? Ok, toma aqui o nosso ajax toolkit e deixa a parte complicada com a gente.

A estratégia do drag-and-drop fazia muito sentido na era pré-internet, para o tipo de aplicações que linguagens como o VB, Delphi e Java se propunham a resolver. Qualquer coisa que exigisse um controle maior do código seria feito em C mesmo, então a bagunça que essa abstração criava embaixo do tapete não era lá muito problemática. Porém, quando as empresas deixaram de ser pequenas ilhas e começaram a provar que a internet podia ser melhor que o desktop para rodar aplicações, era hora de parar.

Mas não foi o que aconteceu. Quando a plataforma .NET foi lançada, havia uma legião de desenvolvedores viciados na facilidade de criar aplicações Windows arrastando buttons, labels e textbox no Visual Basic. Eles não podiam perder essa base de programadores, e como sua próxima meta era o desenvolvimento web, fazer a construção de sites ser parecida com o desenvolvimento windows era a melhor forma de incluir os programadores da geração anterior. Daí o famigerado ASP.NET, com seus viewstates, web controls, page life cycle e tudo mais dos infernos.

Apenas recentemente eles vêm deixando essa postura de lado, com iniciativas open-source, parcerias em soluções já consolidadas e dando mais autonomia para o desenvolvimento de código decente - que o digam o MVC.NET + JQuery. Sem falar que estão cada vez menos tímidos em revelar o quanto já abraçaram internamente a parceria Scrum + XP.

O fato é que enquanto os desenvolvedores .NET eram mimados com ferramentas, o resto ralava tendo que codificar interface na unha ou usando/desenvolvendo ferramentas Open Source. O que era pra ser a maldição destes "rebeldes" virou uma benção, pois, não ter uma empresa ditando como fazer nem o que usar fez essa turma adquirir mais o hábito de trocar informações, dividir código e boas práticas em geral. Surgem frameworks como o Hibernate e o Spring, IDEs diversas, e principalmente, uma grande base de desenvolvedores que sabem o que estão fazendo.

Outro problema pode ser relacionado a cultura das empresas que utilizam a plataforma. Tomara que eu esteja enganado e o que eu vi ao longo da carreira não seja a regra, mas normalmente empresas que adotam integramente um plano de soluções corporativas só estão preocupadas em ter alguém pra processar se fizerem burrada. Nesse tipo de lugar normalmente quem compra não é quem usa, as pessoas são recursos alocados e os processos têm níveis de maturidade. É a entropia fazendo a festa rumo ao colapso, e não existe a menor chance de alguém ser incentivado a olhar pro mundo lá fora quando sua experiência é baseada em lugares assim.

Alguém que não se importa de ser chamado de recurso alocado é incapaz de perceber o valor que existe nestes eventos. Não só nestes encontros, mas nas práticas ligadas a cultura de software em geral. As ferramentas e os processos tradicionais acabam dando a falsa impressão de que está tudo bem, e se o profissional não ficar atento acaba preso num ShouldWorkToLive(Person resource) recursivo.

Sobre o evento em si nem pretendo falar muito, há diversos relatos internet afora e os vídeos podem ser encontrados no Vimeo. Para mim, superou as expectativas a ponto de motivar este recado aos que não costumam trocar figurinha com turmas de outras ruas: saiam da toca e participem dos encontros por aí, têm pra todos os perfis. Testes, agilidade, gestão, frameworks... Veja pelo menos uns dois ou três por ano, vai dar uma grande ajuda pra aprimorar sua visão profissional no período.

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